sexta-feira, 19 de maio de 2017

Economia capitalista e Nova economia: Contraste e transição

Economia capitalista e Nova economia: Contraste e transição

(Por: Jadir Mauro Galvão)


Não é novidade, ao menos para quatorze milhões de desempregados no Brasil, que uma profunda crise se instaurou na economia. Mas essa crise parece ter feições bem peculiares. Não parece ser fruto de um fator externo ou outro, de uma sazonalidade ou de fenômenos alheios a vontade de governantes e empresários. Ainda que os escândalos de corrupção cumpram hoje um papel preponderante na crise, ainda não é esse o ponto que aqui nos debruçamos. Tampouco é conveniente reputar que estamos apenas em um momento de crise, passageira como outras tantas que se viram ao longo de décadas. Falamos de uma crise que parece emergir do próprio modelo econômico vigente. Dito de outro modo, parece que não estamos em um momento de crise, mas num modelo em crise. Modelo que parece preferir a escassez à abundância. Que prefere apostar na competitividade da mão de obra porque reduz o preço. Que prefere comprar a empresa concorrente, (e mandar seus empregados embora) a competir com ela com produtos melhores. Que prefere a disposição do jovem à experiência dos mais velhos. Que prefere a tecnologia como mão de obra à falibilidade humana. Que prefere a obsolescência de seus produtos apenas para exigir nova aquisição e novo lucro. Questão de escolha. Produtividade, preço, custo, lucro… Não é exatamente culpa das empresas. Elas buscam seus valores. O problema é que tudo isso provoca uma série de impactos nocivos: Maior volume de lixo, esgotamento do modelo de emprego, problemas na sustentabilidade, crises sociais...

Muitos de nós nasceram, cresceram e prosperaram dentro desse modelo e mesmo viram o mundo progredir materialmente por conta dele. De modo que é necessário certo esforço adicional para admitir que tal crise seja decorrente desse mesmo modelo. Podemos até mesmo apontar os progressos tecnológicos das últimas décadas como evidências claras do sucesso do modelo econômico ainda persistente. Muito mais fácil reputar a responsabilidade pela crise a fatores externos, sazonais ou mesmo inefáveis a suspeitar das colunas de sustentação que ainda mantém um edifício tão brilhante e lustroso de prosperidade.

Mas, antes de tecer longas e difíceis análises conceituais acerca dos cânones da economia capitalista, tentemos efetuar um pequeno contraste com um modelo que parece emergir de uma nova leitura feita a partir desse mesmo avanço tecnológico que experimentamos. Aquilo que vem se caracterizando como Nova Economia: colaborativa, criativa, social...

Essa tal Nova Economia parece ter um ângulo de visão que lhe permite enxergar abundância onde a outra vê escassez. Do interior das práticas colaborativas que se espraiam cá e acolá, parece emergir um dos primeiros contrastes. A ideia de propriedade privada, tão cultuada pelo Capitalismo, cede lugar para a prática do uso, do acesso ao recurso. Ao invés de vender mais e mais carros, bicicletas ou construir hotéis, permite-se o acesso a eles a partir do cenário já existente de casas ou automóveis particulares. Acessar uma máquina, uma bicicleta, uma ferramenta, compartilhar um serviço parece fazer circular os recursos mais do que ter e vender. Aliás as idéias de propriedade, de lucro e de acumulação parecem muito mais represar riquezas do que fazê-las circular. Diferente das ideias de uso, acesso e compartilhamento que colocam os recursos em circulação e ainda geram trabalho, renda e benefícios para que os tem e também para quem usa temporariamente e não precisa empatar volumosos recursos na aquisição, tampouco no armazenamento em longos períodos de ociosidade.

No vão entre o segundo e terceiro setor da economia, isto é, entre as empresas privadas com fins lucrativos e as ONGs, emergem os Negócios Sociais. Conhecidos como o setor dois e meio. São iniciativas que tem por finalidade resolver algum problema social e tem no negócio, nos produtos oferecidos e mesmo no lucro o meio de atingir seus fins. Um novo contraste surge aqui. Se as empresas tradicionais vêem no oferecimento de produtos um meio de atingir seus objetivos de lucro, as empresas sociais vêem no lucro um meio de atingir seus objetivos sociais. Ambas podem e devem primar por excelência em gestão, por se tornar uma boa empresa para se trabalhar, por remunerar bem seus colaboradores, por oferecer bons produtos e serviços, mas nos negócios sociais parece que carroça e cavalo se colocam na ordem correta. Negócios como meio, pessoas como fim.

Uma lógica que emerge com feições mais humanas e menos mesquinhas. Se no modelo capitalista uma dificuldade surge como oportunidade de se lucrar mais, de aumentar o preço, na nova economia o negócio é a viabilidade de gerar trabalho, renda, dignidade e ainda por cima mitigar os efeitos das carências sociais.

Mais do que apenas oferecer resposta ao desemprego, o novo modelo também oferece antídoto a outra doença do modelo meramente capitalista. As melhores remunerações de trabalho encontram-se nas empresas que visam quase que exclusivamente o dinheiro pelo dinheiro: bancos, financeiras, cartões de crédito... Mas nessas corporações parece também existir entre seus colaboradores, mesmo nos mais bem remunerados, uma crise de sentido, de valor, de propósito. Onde todo o empenho, esforço, estresse e dedicação tem por finalidade apenas o dinheiro. No caso de negócios sociais o valor está na própria finalidade social, o que parece oferecer motivos melhores para engajamento dos colaboradores e, quem sabe, também dos consumidores.

Outro contraste que parece emergir nessa nova economia é na forma de relação entre os atores do negócio. Enquanto no outro modelo se privilegia o poder, o controle, a competição, o novo modelo parece preferir a proposição, a autonomia, e a colaboração. Não há que se esperar pela ordem do que deve ou não ser feito, mas cabe a cada colaborador propor com autonomia. Em um se trabalha para, no outro se trabalha com. Colaborar ou laborar com. Sutis diferenças na semântica mas gritantes na postura, na atitude e quiçá nos resultados.

Um fantasma que assombra o modelo anterior é a concorrência, a competição. Sempre numa busca (sem que se veja claro sentido) pelo crescimento e por abocanhar a maior fatia de seu mercado, as empresas com fins lucrativos competem acirradamente com seus concorrentes por mercados e por consumidores. Para tanto, investem vultosas quantias em marketing, em propaganda, senão em espionagem industrial para crescer mais do que seu concorrente. No novo modelo um novo negócio que busque o mesmo fim será talvez mais um colaborador do que um concorrente. Não há a necessidade premente de crescimento senão na conta de se atingir o maior número de beneficiados. Como o objetivo não é o lucro, tampouco a especulação e nem a distribuição de dividendos para acionistas, toda a rentabilidade pode ser partilhada em boas remunerações, em redução de carga horária de trabalho ou mesmo na inclusão de novos beneficiários do projeto.

Não há no novo modelo a remuneração do capital. Ator inefável promovido a ser atuante, por vezes com prerrogativas superiores às próprias necessidades dos humanos. Quem ja não viu massivas demissões em meio a crises tão somente com a justificativa (para alguns plausível) de fechar o balanço no azul? Como dito anteriormente nesses casos a carroça fica na frente do cavalo.

Se bem mostramos que o colaborador nessa nova economia precisa adotar novas atitudes, algumas empresas da economia capitalista também podem rever seus posicionamentos perante a nova economia. Bem verdade que algumas empresas tradicionais já apostam num modelo mais colaborativo. O conceito de Criação de Valor Compartilhado parece um elemento claro de transição. A Nestlé redesenhou seu modelo de negócio a partir desse conceito. Ao invés de promover uma concorrência entre seus fornecedores de leite, legumes e outros tantos insumos para seus produtos, ela prefere capacitá-los a produzir mais, melhor e com menor custo. Para tanto ela cria uma cadeia de valor que envolve pesquisas em universidades, articulações junto a setores público e mesmo privados, transferência de métodos e tecnologia, sempre no intuito de viabilizar uma produção de melhor qualidade e com menor preço. Com isso, além de criar valor para a comunidade ela também se beneficia. A Coca-Cola investe em água, a Natura em capacitar comunidades para que façam um bom manejo dos insumos provenientes da floresta empoderando a comunidade local. Empresas de papel investem em cooperativas de catadores de recicláveis. Tudo isso envolve uma mudança de olhar para o mercado.

Mas, talvez sejam necessários outras mudanças nas empresas do modelo anterior que melhor se adequem aos novos tempos. O modelo de poder e controle hierárquico e rígido possivelmente se tornará um tanto quanto mais descentralizado e participativo. Não compete só a uma hierarquia reduzida tomar as decisões, mas todo e qualquer participante com uma dose de criatividade e iniciativa pode propor ou receber propostas, ideias, objetivos, produtos etc. Ainda que devam existir pontos focais com conhecimento mais amplo para o devido alinhamento das iniciativas descentralizadas o papel nesse caso é mais o de articulação do que de comando, da facilitação do que de coordenação. Se ainda existem diferenças elas não comportam maiores privilégios. Não se trata da extinção da média ou alta gerência, mas uma transformação na sua conduta e importância.

As empresas antes fechadas em sí e em seus próprios emaranhados burocráticos precisaram aprender uma conduta mais permeável. Estabelecer relações com outros projetos, empresas ou pessoas como objetivos distintos. Para isso é preciso criatividade para estabelecer as relações mutuais. Outras iniciativas não tiram o foco, mas ampliam horizontes e podem enriquecer o negócio.

Essa permeabilidade pode proporcionar outros tipos de relação entre colaboradores ou parceiros de negócio que vão além de emprego ou da mera prestação de serviços.  A natureza é rica em exemplos dessas relações. Mutualismo, comensalismo… Um saudável ambiente receptivo a novas ideias. Dentro do cotidiano pode existir um espaço para receber e acolher o novo, ainda que se precise de tempo para absorvê-lo e mesmo que se teime em reconduzir as negociações para os mesmos parâmetros antigos do lucro também será interessante doutrinar as novas condutas para que se libertem dos hábitos viciosos e rançosos de anteriormente.

É custoso mudar hábitos e crenças antigas, sabemos disso, mas os cânones dessa economia que aprecia a escassez parece se afeiçoar tanto a ela que acaba com suas práticas a produzi-la artificialmente e mesmo se beneficiar dela. Tanto o lucro, a propriedade privada, a acumulação de recursos, fusão de empresas parecem muito mais represar as riquezas disponíveis do dinheiro, de bens de possibilidade de trabalho do que criar um ambiente propício a geração de abundância. Mesmo os empréstimos geram dívidas e não riquezas. Preocupações e não dignidade.

O modelo capitalista surgiu justamente para tirar o mundo de um momento de severa escassez onde alguns poucos nobres mantinham para sí os poucos recursos disponíveis. E ao longo do tempo o fez bastante bem. Reinvestindo seu lucro em novas unidades de negócio, novos mercado,  produzindo mais abundância, mais trabalho, e mais dignidade. Foi, por assim dizer, um remédio amargo para curar um mundo pobre e doente. Por outro lado hoje temos muito mais riquezas, recursos, informações e meios de comunicação do que em qualquer época. Voce tem, nós temos riquezas que desconhecemos. Temos conhecimentos e não aprendemos como usá-lo ao nosso favor; temos capacidades e a maior parte delas não está em uso; temos algumas ferramentas, mas não todas de que precisamos; temos conexões, e não sabemos o que fazer com elas; temos estratégias e muitas já não funcionam no contexto atual; temos uma visão da crise, mas não uma compreensão profunda dela; temos Ideias e precisamos de ajuda para colocá-las em prática; temos capacidade crítica e usamos mais para destruir do que para criar. E está tudo aí, disponível e com tempo de sobra. Falta apenas organizar isso tudo, mas como?

Foram os gestores das empresas que melhor organizaram esses recursos humanos, ou melhor riquezas. E o fizeram bastante bem, criando produtos, projetos, metodologias, departamentos, organizações, métricas… o problema é que toda essa organização serviu para finalidades pouco nobres. Para fazer crescer as iniciativas privadas com fins lucrativos. e acabamos por reproduzir o modelo excludente que devia ter sido superado. Muitos suaram seus macacões e paletós para o benefício de poucos. E foram pagos na menor conta possível para isso. Não se trata agora de nos organizarmos nas mesmas iniciativas privadas, mas nos cabe, de partida, redefinir os propósitos. Redefinir a própria ideia de empreender. E se ao invés de pensar em empreender como uma iniciativa privada com fins lucrativos nos organizássemos em uma Iniciativa colaborativa com a finalidade de criação de valor compartilhado? Ai, quem sabe, quando colocarmos o nome nessa iniciativa, não se resgate a ideia de razão social que todo empreendimento deve ter.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Crise! Que tal buscarmos uma saída juntos?

(Por Jadir Mauro Galvão)


Crise! Que tal buscarmos uma saída juntos?

Não é novidade, ao menos para quatorze milhões de desempregados no Brasil, que estamos em crise. Mas essa crise parece ter características bem peculiares. Não parece ser fruto de um fator externo ou outro, de uma sazonalidade ou de fenômenos alheios a vontade dos governantes e empresários. Não é de escândalos de corrupção que estamos falando. Falamos de uma crise que parece emergir do próprio modelo econômico vigente. Modelo que parece preferir a escassez à abundância. Que prefere apostar na competitividade da mão de obra porque reduz o preço. Que prefere comprar a empresa concorrente, (e mandar seus empregados embora) a competir com ela com produtos melhores. Que prefere a disposição do jovem à experiência dos mais velhos. Que prefere a tecnologia à falibilidade humana. Questão de escolha. Produtividade, preço, custo… Não é exatamente culpa das empresas. Elas buscam seus valores. O problema é que tudo isso provoca o esgotamento do modelo de emprego e ainda não resolvemos o que fazer com o desempregado. Não adianta auxilá-lo até que arrume outro emprego. Não vai haver demanda para todo esse contingente de desempregados. E não é porque voce está empregado agora que não precisa pensar na crise. Cedo ou tarde ela vai bater à sua porta. Parece inexorável. Precisamos buscar uma saída e não adianta ficar esperando que o governo ou as próprias empresas o façam. Algumas pessoas conseguem protelar os efeitos com minguadas alternativas de microempreendimentos individuais, UBER ou coisa que o valha, mas isso parece que é só empurrar o problema para mais adiante.

Por outro lado hoje temos muito mais riquezas, recursos, informações e meios de comunicação do que em qualquer época. Voce tem, nós temos riquezas que desconhecemos. Temos conhecimentos e não aprendemos como usá-lo ao nosso favor; temos capacidades e a maior parte delas não está em uso; temos algumas ferramentas, mas não todas de que precisamos; temos conexões, e não sabemos o que fazer com elas; temos estratégias e muitas já não funcionam no contexto atual; temos uma visão da crise, mas não uma compreensão profunda dela; temos Ideias e precisamos de ajuda para colocá-las em prática; temos capacidade crítica e usamos mais para destruir do que para criar. E está tudo aí, disponível e com tempo de sobra. Falta apenas organizar isso tudo, mas como?

Foram os gestores das empresas que melhor organizaram esses recursos humanos, ou melhor riquezas. E o fizeram bastante bem, criando produtos, projetos, metodologias, departamentos, organizações, métricas… o problema é que toda essa organização serviu para finalidades pouco nobres. Para fazer crescer as iniciativas privadas com fins lucrativos. Muitos suaram seus macacões e paletós para o benefício de poucos. E foram pagos na menor conta possível para isso. Não se trata agora de nos organizarmos nas mesmas iniciativas privadas, mas nos cabe, de partida, redefinir os propósitos. Redefinir a própria ideia de empreender. E se nos organizássemos em uma: Iniciativa colaborativa com a finalidade de criação de valor compartilhado?

Sim, nossa iniciativa vem exatamente nessa direção. Somos uma iniciativa colaborativa com o propósito de criar cenários de abundância e que possam ser compartilhados por muitos. Para atingir tal propósito é necessário o empoderamento de pessoas de modo a que elas possam se emancipar do modelo de escassez vigente, ganhando autonomia para propor e criar coletivamente um futuro a partir de cenários de abundância e cooperação pautados pela criatividade, colaboração e pelo engajamento.

Mas o que entendemos por empoderamento? Conhecimento: diverso, atualizado, autônomo, dinâmico; Ferramentas: múltiplas, flexíveis e práticas de uso; Discernimento: Percepção apurada, conhecimento verdadeiro, atenção, cuidado, acuidade, (Remédio contra a alienação); Estratégia: alternativas. Mas já temos tudo isso disponível, só que está fragmentado e escondido dentro de cada um de nós em cada casa, em cada quarto. Então o que nos falta agora é somente união. Mas diferente da estratégia das empresas que fomentam a competição, precisamos de colaboração, transferência de conhecimentos; precisamos não dividir tarefas, mas somar competências existentes e adicionar novas. Só por aí já se vê uma mudança na equação.

A tal Nova Economia nos trouxe a ideia de cadeia de valor. Como proporcionar não apenas produtos, mas valores intangíveis como conhecimentos, experiências, histórias, cultura... A proposta é termos um grupo heterogêneo que utilize seus conhecimentos, talentos, ferramentas e ideias para criar projetos e iniciativas de valor. Fazer uso da capacidade de planejamento e organização do próprio grupo para criar produtos. Aproveitar a rede de conexões para a divulgação dos produtos em eventos para proporcionar valores tangíveis, intangíveis e até financeiros, que possam ser partilhados por todos os envolvidos gerando até um excedente para investimento em outros projetos ou até para ampliar a rede de abrangência do grupo, criando uma cultura de reciprocidade.

Pois bem, essa iniciativa já existe e está em curso. Ainda dando seus primeiros passos, ainda tropeçando em algumas dificuldades pontuais típicas dos inícios, típicas da inovação. Mas com projetos, ideias de valor e, sobretudo, pessoas engajadas. E voce pode fazer parte disso tudo. Assim, podemos, juntos, criar alternativas para superar a crise de emprego e até construir um novo e melhor modelo de economia de abundância.Se ainda não temos todas as riquezas de que necessitamos, talvez ela esteja aí de bobeira dentro de voce, clamando para ser utilizada.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Crise do emprego e a nova economia

(Por Jadir Mauro Galvão)

Crise do emprego e a nova economia
Vimos a distância em épocas recentes um alarmante desemprego na Grécia, Itália, Espanha e outros integrantes da chamada zona do Euro. Em 2008 os Estados Unidos sofreram com uma grande crise especulativa que também produziu um enorme contingente de desempregados. Incapazes de saldar a prestação de suas hipotecas, viram-se obrigados a abandonar suas casas e ir morar em trailers ou barracas de camping em terrenos vizinhos às suas antigas casas. Nós no Brasil parecíamos imunes, experimentando um momento de consumo que aquecia a economia, gerava empregos, tanto quanto dívidas, mas ai a corrupção desvelou sua face mais horrenda e instalou a crise palas bandas de cá também. Cada qual com sua particular justificativa para suas crises, o fato é que quem sofria era o emprego, e, claro o ex-empregado.
Culpa da especulação imobiliária, da corrupção, da crise econômica mundial.... É que nós nos habituamos a pensar que a economia é feita de empresas e de empregos. Nós, nossos pais, avós, amigos e parentes, vivemos em meio a uma época em que viver, prosperar era ter uma carreira, trabalhar em uma grande empresa, ter um bom mercado de trabalho. Ficamos tão absorvidos por essa ideia que ela assumiu feições de verdade e de naturalidade. É preciso certo distanciamento para perceber que essas ideias de emprego e mercado de trabalho são (senão foram!), um fenômeno atípico.
Um grande boom de emprego foi experimentado, sobretudo, após a segunda grande guerra mundial. Tínhamos uma Europa a ser reconstruída e todo o hemisfério sul para ser desenvolvido. Prédios, máquinas, viadutos, tuneis; alimentos a serem plantados colhidos e processados; ruas a serem asfaltadas e iluminadas. Tudo isso absorveu um enorme contingente de mão de obra que acompanhou esse progresso positivista em sua própria vida pessoal. A globalização e a mundialização ampliaram os mercados e, num primeiro momento ampliaram a oferta de emprego cá e acolá.
Mas os valores cultuados por esse mercado não permitem inchaço. Produtividade, redução de custos, fusões de empresas... chamamos isso de Excelência administrativa! Processos, boas práticas, sistemas de computadores, robotização... tudo isso reduziu sobremodo a necessidade de mão de obra tanto administrativa quanto produtiva. O próximo passo está nos postos de decisão. O desenvolvimento da Inteligência Artificial afetará o nicho pensante das empresas tornando obsoleto muitos MBAs caríssimos.
Não se trata de correr atrás de uma nova graduação ou pós, mas de entender que emprego é uma coisa, trabalho é outra. O mundo não está carente de trabalho, mas sim de emprego.
Emprego é “um” tipo de trabalho, que a iniciativa privada, com fins lucrativos, demanda ao seu bel prazer ou necessidade. Numa palavra emprego é o trabalho privatizado. Por isso é que aquela máxima de que basta de empenhar, batalhar, trabalhar duro, estudar para poder vencer na vida é falsa. A ideia de que todos têm oportunidades é falsa. As oportunidades são demandadas pelas empresas quando querem e só na medida de sua própria necessidade e interesse.
Não estamos falando de má fé ou procurando algum tipo de bode expiatório. Não são as empresas as culpadas da crise ou as grandes vilãs da decrepitude da nossa economia. As empresas trabalham dentro de determinados valores que elas mesmas cultuaram e disseminaram. Competitividade, produtividade; o privado, a obsolescência, o consumo; o profissionalismo a aplicação. Muito que leem o que acabei de escrever concordam com esses valores, mas sem se dar conta do que se tem de abandonar em prol deles. Competitividade prescinde da cooperação são ideias antagônicas. Ainda que as empresas fomentem cá e acolá a ideia de cooperação entre seus colaboradores, na prática isso resulta em pura competição. No afã de ser o mais produtivo possível os próprios valores da vida como a diversão, a brincadeira o relacionamento social sem intenção de network, ficam de lado. O privado rivaliza com o público; a obsolescência e o consumo destroem os recursos naturais.
Será preciso romper com alguns desses valores para poder desenterrar outros modelos de trabalho que não o do emprego. Algumas iniciativas já caminham nessa direção. Hoje compartilhamos carros (Uber), compartilhamos casas (hostels). As ideias de associativismo não são novas. Hoje já falamos em provedores de plataforma e provedores de conteúdo. Eu mesmo contratei um provedor de plataforma rádio web e provisiono conteúdo de filosofia.
Não é pensar em montar um negócio privado com fim lucrativo. A maior parte de nós não tem lucro, muitos até nem sabem direito o que é isso. Lucro é um excedente para além do trabalho, dos custos e mesmo dos investimentos. É excedente. Salário, junto com os diversos outros benefícios são a contrapartida do trabalho, mas nesse caso não há lucro. No negócio privado você precisa pagar por tudo. Não há quem se associe a você senão com vistas ao lucro. Na associação você soma iniciativas, soma esforços e compartilha os resultados.
Não há que se pensar em uma carreira de longo prazo. Temos múltiplas capacidades que nos permitem participar de projetos das mais diversificadas áreas. Alavancar um projeto de co-working, desenvolver um hostel, fazer pegar uma rádio web. Dar uma força para um amigo que precisa de conhecimentos em energia fotovoltaica ou mesmo atrair público para aquele bar ou festa. Experiências gastronômicas, experiências de cultura... múltiplas tarefas, múltiplas iniciativas, múltiplas possibilidades. Desenvolver um novo olhar. Um olhar que não mira num emprego, mas numa possibilidade. Que não mira no salário, mas nas conexões. Que não mira nas vantagens que obtém para sí, mas nas possibilidades que cria para todos. Que não pensa em organograma, mas em associações em rede ou em teia, como queiram. Onde não se pensa em motivar o outro, mas em criar valor para todos. Onde você não é o único responsável por criar o valor, mas permite que outros possam somar suas ideias e juntos compartilhar os valores (e não estamos falando em dinheiro) com todos. Onde não se pensa em comprar e vender, mas em disponibilizar, oportunidades, recursos, plataformas, informações, na medida de nossas possibilidades e toma-los na medida de nossas necessidades ou vontades.
Mas também precisaremos nos habituar com o incerto, com a mudança, com o improviso, com o provisório. Como diria Bauman: com o “líquido”. São inúmeros termos que já há tempos não visitam nosso vocabulário que por vezes ao tentar compreendê-los nossa consciência insiste em encaminhá-los para as ideias ainda arraigadas de propriedade, de lucro ou outros quetais. Com o tempo vamos digerindo esses assuntos, mas parece que não há mais tempo para continuar pensando em emprego. Eles não vão deixar de existir, mas certamente perderão o papel preponderante e o status que tiveram tempos atrás.

O processo de digestão pode até ser lento, mas o mundo está mais rápido e para nos inserirmos mais rapidamente nesses novos tempos e poder fazer a história mais do que ser somente passageiro dela, já está mais do que na hora de tentar entender esse novo cenário e seus valores e mais do que isso pautar nossos objetivos, metas e estratégias nesse novo paradigma econômico. Ou então ficar se lamuriando que o mercado está em crise e continuar procurando emprego.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Economia horizontal

Economia horizontal
(Por Jadir Mauro Galvão)

Ainda hoje estamos habituados a uma economia verticalizada. A regra dessa economia é a iniciativa privada com fins lucrativos. Esse modelo ainda vai perdurar, mas ele é pouco amigo e pouco inclusivo. Nós ganhamos dinheiro com ele, mas só o mínimo possível. Aqui vale a regra de quem pode mais chora menos. Quem está no meio dessa pirâmide fica refém das demandas que vem de cima. Quem ganha mais é sempre aquele que é dono do negócio. Mesmo empreendedores que estão num nível intermediário ficam também com uma parcela intermediária. O dono de um mercado, por exemplo, claro, ganha mais, muito mais, que seus empregados, mas mesmo esse é somente um mero empregado das grandes marcas que ele comercializa. Para essas grandes marcas você é só um ponto de venda maior ou menor. Uma gráfica é só “um funcionário terceirizado” das grandes indústrias de papel ou das editoras.  E mesmo esse empresário precisa pagar por quase tudo. Não há nesse tipo de relação econômica algo como uma real parceria ou colaboração. Como sua finalidade é meramente lucrativa, isto é, visa um benefício próprio, só se consegue aliados quando se paga por eles. É preciso que esse empreendedor pague pela propaganda, pela panfletagem, pelo anúncio, placa com seu nome, pela limpeza, pela organização, pela impressão, pelo transporte...
Quem está mais abaixo nessa verticalização acredita que “todos têm oportunidades, basta que se esforcem”. Contudo, as oportunidades somente são demandadas por quem está no patamar mais acima, e mesmo esse, só consegue demandar na medida em que tem recursos financeiros para bancar tal oportunidade. Essa relação é conhecida como emprego. Um tipo de trabalho privatizado, que pertence a uma iniciativa privada. A maior parte de nós nasceu, viveu e cresceu dentro desse cenário que, de modo atípico, dominou a economia mundial desde um ou dois séculos, mas com mais força e vigor após o término da segunda grande guerra. As grandes organizações demandaram enorme contingente de empregados e prosperaram magnificamente.
A ideia de emprego, de mercado de trabalho assumiu uma importância tal que levou de roldão a educação, as iniciativas governamentais e outras tantas para a mesma direção. As universidades que até então nos serviam para adquirir um conhecimento geral de nível superior, se tornou basicamente um ensino profissionalizante para além do técnico. As iniciativas governamentais foram no sentido de dar todo o apoio e infraestrutura para que essa via prosperasse. As pessoas escolhiam como seria sua vida, onde morariam, muito em função do mercado de trabalho.
Os espaços públicos, os bairros foram formados a partir desse cenário. Temos em São Paulo bairros inteiros que foram formados ao redor de indústrias, como Penha, Brás, Mooca, Água Branca entre outros. As antigas cidades europeias giravam ao redor do castelo real, nossos bairros mais tradicionais ao redor de indústrias. Mas mesmo hoje, bairros como Vila Olímpia, Brooklin, são reformulados ao redor dos edifícios de grandes empresas. Os imóveis residenciais mais valorizados ainda são os que estão mais próximos do emprego.
Mas esse mundo das empresas funciona baseado em determinadas regras. Produtividade, competitividade, redução de custo, domínio de mercado... Tudo isso produziu um cenário em que o próprio fenômeno do emprego entrou em declínio. Na medida em que as empresas ganharam em eficiência administrativa, menor é a necessidade de mão de obra. Na medida em que, visando domínio de mercado consumidor, empresas grandes adquirem outras tantas menores, são ceifadas centenas, senão, milhares de estações de trabalho, ou melhor, vagas de emprego. Na medida em que as empresas conseguem mapear processos e boas práticas, menor é a exigência de qualificação do profissional. Qualquer profissional que aceite uma remuneração mediana pode realizar tarefas até então intrincada, pois já se tem sistemas, metodologias, processos, e todo o mais que possibilita ao empresário uma redução custo em sua folha de pagamentos de empregados.
Ainda que se considere que estamos em pleno curso de uma crise econômica nacional, senão mundial, com o desemprego assombrando famílias e mais famílias. Já é possível perceber sinais claros de que esse fenômeno do emprego vai se ajustar a patamares mais modestos do que fora outrora. Não será possível reabsorver todo o contingente de milhões de desempregados ao redor do mundo. Estatísticas recentes deram conta de que vinte e cinto por cento da população da Espanha estava desempregada. Cenário semelhante vivem Itália, Portugal e outros países ditos ricos. Que dizer então dos “em desenvolvimento”? Mas o que será desse magnífico contingente de desempregados. Serão deserdados sociais?
Não. Ainda temos muito trabalho, o que nos falta é emprego. Será preciso certo tempo e mesmo esforço para se compreender que emprego é um fenômeno que assumiu responsabilidades que não lhe pertenciam. Com a farta oferta de empregos durante tanto tempo, nós desaprendemos de trabalhar em outros modelos. A abundância de empregos foi um fenômeno sazonal. Ainda que tenha durado longo tempo, agora ele tende a se acomodar em outro patamar. Precisaremos nos organizar de outro modo. Quem sabe em um modelo que seja mais horizontal.
Emerge cá e acolá outros modelos associativos, colaborativos, cooperativos. É preciso que se desenvolvam modelos menos travados de associativismo. Projetos de iniciativa colaborativa, pois sozinhos teremos dificuldades de prosperar qualquer que seja nossa iniciativa. Juntos, apoiados podemos ser grandes. A divulgação de um projeto, de uma iniciativa, se feita por muitos, tende a prosperar, mas será preciso que o projeto não seja concebido meramente como uma iniciativa privada com fim lucrativo. O próprio projeto precisa ser engendrado concebendo a hipótese de benefício de muitos. Cada qual que veja uma iniciativa ainda que esta seja individual, pode pleitear não só a colaboração como a de propor que ele também se beneficie dos resultados. Empreender, visto desse modo, não é uma iniciativa privada, mas colaborativa, compartilhada, em união e não em sociedade de capital. Não se divide os lucros, mas se compartilha os resultados.
No modelo vertical muitos trabalham para o maior benefício de poucos e para a subsistência de outros tantos. No modelo horizontal todos trabalham para o benefício de muitos. Os benefícios não são aritméticos, mas exponenciais. A matemática aqui é outra e a postura também. Talvez não seja o caso de se aliar a uma iniciativa por cinco ou dez anos, mas adquirir um espírito livre, permeável a novas ideias, novas perspectivas, novas concepções que podem mudar de tempos em tempos. Empreender agora é conjugado com outros verbos como: conseguir mobilizar valores, pessoas, objetivos, iniciativas. É agregar, é expandir, é somar e não adquirir, reter, absorver, dominar e comprar. Não pensamos mais em comprar e vender, mas em contribuir e usufruir. Se colabora não pensando no que se terá em troca, mas porque a iniciativa é de valor.
No modelo vertical você contratava e pagava, no modelo horizontal você precisa conquistar e encantar. No vertical você estava disposto a fazer coisas que não gostava se isso lhe rendesse um bom dinheiro. Agora você pode colaborar fazendo o que você faz melhor, no tempo que achar melhor. Num se fala em “eu”, noutro em “nós”. Trabalho temos muito o que precisamos agora é aprender a nos organizar em rede, em teia, de modo horizontal em iniciativas nossas ou de outros.  

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Filosofia como ferramenta profissional

Filosofia como ferramenta profissional

(Por Jadir Mauro Galvão) 

Introdução

Nossa intenção aqui é demonstrar que nossa atual maneira de pensar o mundo das empresas foi fruto de uma escolha que á sua época foi bastante sensata, mas que acabou por abandonar outras tantas e ricas formas de pensar. Mais do que isso, compreender que nosso atual estilo de pensamento não responde adequadamente às demandas de nossa época. Será preciso lançar mão das ferramentas da filosofia, no intuito de reorganizar nossa compreensão sobre nosso tempo. As ferramentas que a filosofia proporciona servirão como trunfos no atual jogo corporativo, mas mais do que nos permitir um bom posicionamento no jogo atual, nos possibilitará ditar novas regras para o mesmo jogo. Regras mais sensatas do que as atuais, mais honestas e, sobretudo, mais humanas. Para tanto precisaremos percorrer por algumas dessas tantas correntes de pensamento, verificar quais foram as condições que influenciaram nossas escolhas, bem como apontar quais foram nossas renúncias e que preço elas tiveram em nossas vidas. 


1.      Origem histórica


Empresas, como conhecemos nos dias de hoje, só começaram a se formar depois de uma transformação em nossa organização social ocorrida por conta da revolução industrial, concomitante com a revolução francesa. Até então a filosofia gozava de certo prestigio e circulava livremente pelas rodas da alta sociedade. Ainda que não houvesse unidade de pensamento, todas as correntes filosóficas partilhavam a importância da reflexão profunda. Digladiavam-se entre sí no embate de pensamentos os Idealistas metafísicos, os Empiristas, os Utilitaristas entre tantas correntes filosóficas contemporâneas. O modelo de sociedade vigente na época era monárquico. A sociedade era dividia entre nobreza e plebe. As camadas sociais ainda permitiam divisões como o clero, os homens de armas e os de ofícios. Alguns outros muito poucos giravam ao redor dos castelos e da nobreza exercendo influência sobre esse poder central. Por mais démodé que nos pareça, esse tipo de organização perdurou por mais de mil e quinhentos anos e alcançou horizontes em todos os cantos do mundo.
Essa sociedade monárquica valorizava a arte, a música a religião, o sagrado, a elegância, o comportamento nobre... tinha na metafísica sua filosofia predileta e mesmo que dessa filosofia não se retirasse resultados práticos, só o rebusco das abstrações já conferiam certo prestígio ao seu elaborador e, com isso, posição social. Era um modelo que relegava a população fora dos altos círculos sociais, uma condição bastante miserável. Sem estudos, sem dinheiro, sem terras cultiváveis expostos ao frio e a fome. Podia-se morrer de fome com a cabeça recostada em um saco de farinha, pois o ofício da panificação era restrito a classe dos padeiros ou, as rodas dos palácios. Podia-se morrer de frio ao lado de uma ovelha pelo puro desconhecimento dos ofícios da tosquia, do curtume e da fiação.
A mudança no modelo de organização social sofreu profunda influência dos pensadores Iluministas que viam na ciência, nos ofícios e nas atividades práticas muito mais interesse, sobretudo social, do que uma metafísica que discutia sobre o Eu, sobre o Absoluto, sobre a Vontade ou outra abstração qualquer. Entre os que mais prosperaram com o novo modelo o Reino Unido era sede do pensamento filosófico Utilitarista na figura de Jeremy Bentham. Bebiam da filosofia utilitarista os mais brilhantes economistas que deram o tom e o brilho de uma sociedade que visava a produção do excedente, a expansão de fronteiras, o lucro e a prosperidade. Criaram-se escolas de ofícios que proviam os profissionais para trabalhar nas fábricas e mesmo em escritórios que controlavam a produção, seu escoamento, bem como a aferição de lucros e a destinação de investimentos.
Esse novo modo de olhar para a sociedade e para o sistema de produção de riquezas acabou por produzir resultados materiais expressivos. A produção em escala dos mais diversos bens materiais como vestuários, alimentos, e toda a sorte de utensílios, bem como o emprego remunerado que podia gerar a renda necessária para aquisição desses bens, organizou a sociedade de outro modo e deslocou o centro que antes era ocupado pelo castelo agora para as fábricas.
A grande expansão econômica acabou por coroar também um modelo de pensamento. O importante agora é o que é útil, prático, as ciências que permitem o desenvolvimento de novos materiais, novas tecnologias, novas energias e todo o mais que possa prover produtos, vendas, renda e, sobretudo, lucro para uma nova classe emergente de pessoas que não nasceram nobres. A nobreza ainda era valorizada, mas somente na medida em que trabalhava e produzia ou gerenciava uma organização produtiva. O trabalho começa a ter mais importância que um título de Conde, Duque ou Barão. Mesmo os antigos nobres experimentam uma abastança da qual jamais haviam imaginado. Incluir socialmente tornou-se bastante lucrativo. Empregados livres oneravam a cadeia produtiva menos do que escravos.
O modelo de pensamento prático, utilitarista e de ofícios era mais produtivo do que todos os outros somados. Fica então acordado que este é “melhor modo de pensar”. O mais produtivo, mais lucrativo, que produz mais riqueza e, com isso, felicidade. Ficam então proscritos outros modelos de pensamento. Agora temos os pensamentos úteis e todos os outros se mudam agora em sua antítese: inúteis. Para esse lado se mudam de supetão a metafísica, a arte (não lucrativa), o sagrado, o pensamento reflexivo profundo... Mesmo a busca pela verdade fica suprimida. Antes de se perder tempo tão precioso na busca pela verdade pensemos primeiro em sua utilidade. Mesmo que algo não seja realmente verdadeiro, se se mostra útil, ainda que durante certo tempo, acaba sendo preferível. O ócio até então bastante cultuado se estabelece como sinônimo de preguiça e fraqueza. Consolida-se então a sociedade da cultura do “Tempo é dinheiro”.
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2.      Carta de valores corporativos

Sem que houvesse necessidade de uma promulgação oficial, tão pouco de um documento escrito, estabelece-se um extenso conjunto de valores, crenças, práticas de conduta aceitos, cultuados e valorizados num mundo remodelado e reestilizado. Empenho, dedicação e esforço; eficácia, eficiência e produtividade; comprometimento, confiança e profissionalismo. Fidelidade para com empresa. Negligenciar o sigilo era o mesmo que traição e sua punição era pior do que a excomunhão: demissão por justa causa.
O trabalho não é para prover a vida dos recursos que ela necessita, mas, ao contrário, é a vida que provê os recursos que a empresa necessita. O desempregado é somente um ser com uma semivida. Inútil, ineficaz, inepto. Sua vida é sem valor. Oferecer um emprego era misericordioso. Ato divino de uma religião onde o olimpo era nobremente mobiliado e os deuses eram os diretores, presidentes, superintendentes onde eram tomadas as decisões sobre os rumos da humanidade.
Um bom emprego conferia prestígio social e recobria de responsabilidade o seu ocupante. Esse critério também promove uma suprema inversão de valores: não são as empresas que servem a sociedade, mas a sociedade é que serve às empresas. Visto desse ângulo é possível observar e compreender a conduta de inúmeros dos nossos gestores. Se precisar escolher entre manter o trabalho de uma centena de trabalhadores, seu meio de sobrevivência e sua dignidade e conseguir um aumento de produtividade automatizando ou robotizando uma operação, já sabemos qual será sua escolha. Se tiver de optar entre manter ou não um trabalhador menos produtivo, ainda que a equipe renda mais com sua presença e tenha uma melhor qualidade de vida no trabalho, já sabemos qual opção será mais bem vista. O paradigma do lucro e da produtividade constrói um conjunto de “verdades” que só fazem sentido se observados a partir de seu próprio critério. Uma doença que afasta um profissional de suas atividades produtivas é temporariamente tolerada, contudo se ela derrubar os índices de produtividade por tempo maior será preciso demitir o mesmo até para que “ele possa cuidar de sua saúde em tempo integral“.
Cada empresa nutre maior apreço por um conjunto seleto de valores em detrimento de outros e essa escolha edifica um conjunto de condutas aceitas tanto quanto outras malvistas. São estes os critérios que definem quem irá progredir ou não dentro dessa organização. Colidir ou confrontar essas condutas é confrontar os valores escolhidos e, com isso, afrontar o critério particular de verdade. O termo Verdade aqui é tomado apenas em sentido didático. Verdade não pode ser nunca particular, mas esse critério é pouco útil para as empresas que mudam seus gestores. É preferível uma verdade mais plástica que se adapte ao gestor, ao momento econômico da empresa. Revoltar-se contra essa máxima é improdutivo.
É claro que esse movimento no sentido inverso da verdade retira grande parte do sentido original de uma empresa: sua razão social. Muitos trabalhadores percebem esse critério de verdade particular e acabam por justificar seu próprio critério de verdades e trabalha orientado neles, mas somente se o confronto das suas verdades não ultrapasse os limites das verdades da empresa. Surge aqui uma hipocrisia bastante generalizada onde são confrontadas as verdades de cada um ou de pequenos grupos. Surgem as panelinhas, os conflitos e cada qual calcado em “sua” própria verdade acaba por se justificar. Cada grupo, por assim dizer, remando para o seu lado o mais distante do lado do outro. Nesse ponto cabe ao gestor o pulso firme de fazer com que todos orientem seus esforços no sentido contrário de suas próprias verdades para alinhá-los na direção das verdades da empresa, provocando assim insatisfação generalizada.
Se esse tipo de conduta reconduzisse a todos na direção de uma verdade realmente verdadeira, penso que todos se beneficiariam, mas nesse caso todos acabam por se prejudicar, inclusive as organizações. Essa é uma das dificuldades de que padecem a maioria das empresas. Esse tipo de conduta produz uma competitividade corrosiva. A ideia de competitividade original que era a de selecionar os melhores profissionais acaba por ser fomentada dentro do ambiente de trabalho entre os melhores, que acabam por não dar de si o seu melhor por não ver o menor sentido nisso. É nesse ponto que a filosofia pode e deve entrar com seu papel de reflexão conciliadora.
    

3.      O resgate da filosofia

Algumas das ocupações mais tradicionais da filosofia é buscar o sentido das coisas. Não uma significação particular subjetiva, mas um sentido próprio e genuinamente verdadeiro que por si só se impõe como valor e arrasta as diversas condutas para a mesma direção por força de sua própria autoridade de verdadeira. Por outro lado, uma das coisas que mais reduz o desempenho profissional é justamente a falta de sentido experimentada por quem executa a atividade profissional mecanicamente.
Experimentamos toda sorte de conflitos que geram estresse, desmotivação e falta de engajamento. As empresas pretendem excelência profissional com o menor custo possível. Querem profissionais criativos, mas que sigam os processos previamente estabelecidos. Querem que seus faturamentos aumentem sem ferir a sustentabilidade. Querem obter mais lucro, mas com o menor esforço.
Essas inconsistências podem não revelar suas contradições internas se olhadas pelo paradigma utilitarista, mas uma reflexão mais profunda facilmente revelará a completa falta de sentido dessas e de inúmeras outras práticas do mundo corporativo e que hoje são bastante insuspeitas. Mas a reflexão profunda ficou proscrita junto com a metafísica, a arte e o sagrado. Será preciso oferecer um indulto para que ela possa resgatar seu próprio valor. O próprio estilo de pensamento utilitarista não conseguirá sozinho resgatar a ideia de verdade, tampouco observar suas próprias inconsistências internas. A utilidade tem características próprias e usos próprios que foram bastante uteis em determinada época e em determinadas circunstâncias, mas é incapaz de oferecer respostas adequadas para coisas que ultrapassam sua competência. É preciso resgatar do calabouço não somente a filosofia, mas uma porção de outras maneiras de pensar que vão muito além do pensamento utilitarista. Não será preciso deixar de pensar de modo utilitário, mas apenas utilizá-lo para aquilo a que ele se presta melhor. Para todo o restante podemos ter um conjunto de outros modos de pensar, mas ricos e elegantes.




REFERENCIAS

BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1842

GALVÃO, Jadir Mauro. Filosofia nas empresas. São Paulo: Paulus, 2014

ROBINSON, Joan. Liberdade e necessidade. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Coleção Os Pensadores)




quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sobre emprego e trabalho. Uma nova fase na economia

Sobre emprego e trabalho. Uma nova fase na economia

(Por Jadir Mauro Galvão)

Nasci e cresci dentro de um cenário de emprego. Quase tudo girava ao redor dessa ideia. Dentro de uma família que trabalhava empregado em grandes empresas. As pessoas organizavam suas vidas dentro dessa realidade que por arrastar um grande contingente soava como realidade última e natural, assim como respirar ar. Dormia-se cedo, pois o emprego cobrava. Estudava-se para se ter melhor sorte no emprego. Se, por obra da sorte ou do acaso, ocupássemos uma vaga na área de contabilidade, de compras, de vendas ou outra qualquer de uma grande empresa, o mais “natural” era dedicar seus estudos a essa área, pois isso iria potencializar suas oportunidades. Perder o emprego era contingência e a busca por outro o caminho a ser seguido.

Nem todos conseguiam ocupar vagas em grandes empresas, mas essa possibilidade era sonho majoritário. Um cargo de liderança em uma grande organização era sinal de prestigio, bom salário, competência e mesmo a garantia de certa estabilidade financeira. Faculdades guiavam seus esforços no intuito de prover o conhecimento necessário para que seus formandos tivessem a capacidade de ocupar boas vagas dentro desse mercado. Algumas empresas mesmo usavam a formação em determinadas instituições de ensino como critério ou requisito de seleção.

As ofertas de emprego eram exigentes, mas fartas. Havia certa sazonalidade das profissões, mas um mercado aquecido também aquecia a oferta, tanto quanto a concorrência. Tudo isso era alavancado por um crescimento econômico sem precedentes e que oferecia um razoável mercado para profissionais de diversos tipos e múltiplas competências. Em geral não se consultava previamente as qualidades dos postulantes a profissional. Era a necessidade do mercado de trabalho que regia a lei de oferta e procura de empregos, bem como a direção de seus esforços da educação e das pessoas. Se o mercado tivesse necessidade de engenheiros, jovens de todos os lados de acotovelando para conseguir formação na área com maior carência. Se por outro lado o mercado precisasse de economistas, seus profissionais eram mais bem remunerados e dai em diante. As regras eram ditadas pela empregabilidade, estabilidade profissional, remuneração, etc. Se não eram profissões altamente técnicas, ainda havia bastante espaço para as posições dentro da burocracia administrativa. Um formado contador poderia ocupar vagas em contas a pagar, a receber, contabilidade, finanças, custos e outros mais.

Este cenário perdurou por várias décadas e muitos, como eu mesmo, viram nessa dinâmica algo de real e verdadeiro que duraria por todo o sempre. A mecânica de funcionamento da sociedade contemporânea. Qualquer que fosse o regime político a interferência no processo seria maior ou menor, mas, de qualquer modo, incapaz de modificar significativamente o quadro. Algumas épocas de recessão, de crise econômica ou até mudanças na economia arrastavam as vagas da indústria para o comércio, depois para os serviços, bancos, financeiras. Surgiram com vigor os cartões de crédito, as seguradoras e os negócios que giravam para o e pelo dinheiro acabaram por arrastar elevados contingentes de profissionais para suas fileiras. As crises faziam minguar as vagas, mas tempos depois elas reapreciam, redimensionadas, reconfiguradas, pagando um pouco menos, mas perduravam.

Mas algumas das regras desse jogo já prenunciavam seu destino. Redução de custo, redução da folha de pagamento, fusões, mercado globalizado, computação, robotização, otimização de processos, adoção de boas práticas, automação comercial, sistemas de gestão, sistemas gerenciais... Tudo isso fazia o barco remar na direção da parte mais rasa do rio até então caudaloso de oportunidades profissionais. Todo o ganho de excelência administrativa, todo o crescimento econômico alcançado, não teriam como desembocar, senão no cenário atual de crise de emprego. A curva de crescimento que teve seu pico nos anos 70, 80 e 90 tomou outra direção e começou a entrar em franco declínio.

Não se trata de uma crise momentânea para depois se reaquecer, mas de se estabilizar num patamar mais condizente. No fundo, o bum do crescimento econômico produziu uma quantidade de empregos que não poderia se sustentar sem que isso produzisse efeitos danosos a todos. A produção da indústria se estabilizou, o comércio acompanhou e também reduziu. Cresceram os serviços, mas a ponto de também não conseguirem absorver todo o contingente migratório da indústria e do comércio.

No fundo o cenário de abundância de empregos cresceu como uma bolha e, como tal, cedo ou tarde explodiria ou murcharia. A farta oferta de empregos ao longo de décadas funcionou como um grande torrão de açúcar próximo a um formigueiro. Mas, o fato de o cenário perdurar por décadas nos fez acreditar que seria uma maneira perene de ser e de existir. Não havia necessidade de outro tipo de economia, de outros tipos de trabalho, nem de organização profissional. O emprego supria a necessidade da maioria. Arrastava potenciais atores para o perfil de vendas, músicos para funções burocráticas, agricultores para as fábricas, pensadores para o ramo da computação. Era mais fácil aproveitar as oportunidades e as razoáveis remunerações do que arriscar tentar ganhar a vida com a arte, com a música ou com a filosofia.   

Hoje o mundo experimenta uma grande crise de emprego. Não que não exista trabalho, o que minguou foi o emprego. Aquele trabalho focado na iniciativa privada, com fins lucrativos. Trabalho privatizado, pago por quem tem uma empresa e precisa crescer, aprimorar e atingir novos mercados. As grandes empresas cresceram, alcançaram novos mercados. Se estabilizaram em seu mercado consumidor. Já estabeleceram suas posições, compraram seus concorrentes que ofereciam maior risco. Atingiram certo grau de excelência administrativa que não requer mais tanta mão de obra. E da mão de obra necessária nem é necessária grande competência. Os processos se incumbem de mitigar os riscos de inexperientes. Os movimentos de crescimento que ocorriam aqui, lá e acolá por onde se olhasse agora funcionam como esperança dos que não perceberam a mudança de cenário, tanto quanto refutação para nosso argumento. Nos pequenos focos de crescimento se aglutinam grandes porções de desempregados reivindicando valores cada vez menores e se dando por contente com uma oportunidade de emprego por tempo determinado, mesmo que terceirizado ou quarterizado.

O emprego continuará existindo, mas demandando cada vez menos profissionais e a população precisará encontrar outros meios de subsistir. Hoje ainda temos esse enorme contingente de desempregados procurando desesperadamente e em vão pelas antigas vagas de trabalho.

O cenário mudou, definitivamente mudou. Não é uma crise ou acomodação momentânea. O cenário mudou, mas ainda não se reconfigurou. Veremos ainda muitas crises na educação, pois as faculdades ainda estão formando profissionais para integrar esse mercado ora extinto. Nos serviços, pois os restaurantes e lojas que funcionavam próximos aos escritórios terão de se ver com o Home Office, com o desemprego etc.

Longe da tutela de um grande emprego em uma grande empresa os profissionais precisarão buscar alternativas para seu ganha pão. Em resposta a tudo isso vem ganhando força algumas ideias que nem são assim tão novas, mas que surgem como válvula de escape. Economia colaborativa, associativismo, cooperativismo, organizações do terceiro setor. Economia de bens intangíveis onde se pode produzir sem agredir o meio ambiente. Novos conceitos como uso substituindo a propriedade. Compartilhamento de serviços de espaços. Não nos basta “procurar” por oportunidade, precisaremos criá-las. Todo o cenário descrito anteriormente também nos estimulou a um individualismo que desembocou num certo grau de egoísmo, e essa característica não é muito bem-vinda se pensarmos em ideias associativistas. A população civil terá de se rearranjar, de se reagrupar, de criar cenários econômicos para além de produzir e vender. É uma reconfiguração profunda nas ideias de empreender, de trabalhar, de consumir, de ter, ganhar, comprar. Precisaremos visitar outras páginas no dicionário para compreender o significado de contribuir, cooperar, usufruir, utilizar, disponibilizar e inúmeros outros verbetes que há tempos não visitávamos.

A maioria das faculdades, sobretudo as grandes redes de ensino superior, não são mais empresas de educação, mas sim empresas comerciais. Talvez tenhamos de remodelar a ideia de escola. Diferente do modelo de empresa privada com fins lucrativos, para um modelo cooperativo. Talvez não apenas formando um técnico apto para uma vaga de emprego técnico ou burocrático, mas oferecer um real ensino superior.

Será melhor, como tenho recomendado ao longo dos anos, primeiro verificar os talentos, os dons internos das pessoas para depois ver como coloca-los a serviço não do emprego, nem da indústria ou de bancos, mas sim da sociedade em geral, da coletividade.